Poesia: Como compreendê-la?
"Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia." (Drummond)

As pessoas hoje em dia não querem ler poesia, poucas têm esse prazer. Ler Drummond, para muitos, é algo incompreensível, e ao tentar escrever, cito-o: "A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca."  Tem que ter algo mais, a inspiração para escrevê-la está sufocada por atrozes pensamentos. As coisas de hoje em dia estão se banalizando com tanta facilidade que escrever sobre elas se torna tão banal quanto a coisa em si.

Um poema ou uma poesia deve merecer ser parida. A palavra, ainda escondida, se revela a quem de fato a mereça, seja para lê-la ou mesmo como parte própria e intrínseca da mesma. Como compreendê-la em uma sociedade onde se passa mais tempo na frente de uma tela que em frente a um papel pintado de tintas? "A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada, ampla, vibra. A alma dos movimentos rotatórios..."   Augusto dos Anjos. Como compreendê-la?

Assim, vamos vivendo sem ao menos ter consciência de que a palavra, muitas vezes sofrida, perde espaço para novas tecnologias. O poeta, já cansado da lida se vê perdido e impelido a não continuar.

Escrever não é tarefa dolorosa, mas nossas escolas não estão promovendo suficientemente esse hábito em nossas crianças. "No Sertão a pedra não sabe lecionar, E se lecionasse, não ensinaria nada;" João Cabral de Melo Neto. Como compreendê-la?

Há muitos poetas que o são para si, muitas vezes por ter a vergonha de expor seus sentimentos e suas impressões sobre o que o cerca, e nessa interiorização do pensamento a poesia fica, se perde, dentro do próprio poeta. Então, "Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo:  — mais nada." Cecília Meireles. Como compreendê-la?

O destino, por mais cruel ou benevolente que seja, muitas vezes nos carrega para outros campos, muitos deles estão secos e sem vida. É preciso correr contra o tempo, trazer de volta o menino que um dia, apaixonado pela vida, regava seu destino com poesia na tentativa de melhorar o caminho. "Ah! enquanto os Destinos impiedosos não voltam contra nós a face irada, façamos, sim façamos, doce amada, os nossos breves dias mais ditosos. Um coração, que frouxo a grata posse de seu bem difere, a si, Marília, a si próprio rouba, e a si próprio fere."  Tomaz Antonio Gonzaga. Como compreendê-la?

Lê-se pouco poesia e sempre os mesmos poetas. Nessa nova geração não há tempo para reflexões e sentimentos materializados em papel e tinta, muito menos editoras estão interessadas em publicar devaneios sublimes de um louco a escrever poesias. " Eu queria, como queria saber perder para que agora tanta saudade de ti, não sentir doer. Eu queria morrer agora, nesse instante, sozinho para novamente ser embrião e nascer; Eu queria nascer de novo, para me ensinar a viver."  Anderson Herzer ou, se preferir, Sandra Mara Herzer. Como compreendê-la?

E na tentativa de continuar nesse doce e suave caminho eis que surge uma pedra: " No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra."  Drummond. Pois bem amigo Drummond, também não esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas.

Como compreendê-la?

Marco Lacerda (26/02/2011)
 
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